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Recibos Verdes ou Lda: Quando Vale a Pena Abrir Empresa?

Abrir uma Lda para pagar menos impostos? Compara IRS, IRC, Segurança Social e custos fixos em 2026 - com números reais e os sinais de que está na hora.

Recibos Verdes ou Lda: Quando Vale a Pena Abrir Empresa?

Mais cedo ou mais tarde, todos os freelancers ouvem a mesma frase: “Devias abrir uma empresa, pagas menos impostos.” Vem de um primo, de um cliente, de alguém no coworking. É a versão seguinte do clássico “nos recibos verdes ganhas mais” - e, tal como esse, merece contas em vez de fé.

A resposta curta: para a maioria dos freelancers, não vale a pena. A resposta completa depende de três coisas - quanto faturas, o que fazes ao dinheiro e para onde queres levar o negócio.

Duas formas diferentes de trabalhar por conta própria

Como trabalhador independente (o regime dos recibos verdes), tu e o negócio são a mesma pessoa. O que sobra depois dos impostos é teu, sem passos intermédios.

Uma Lda (sociedade por quotas) é uma pessoa diferente de ti - tem o seu próprio número fiscal, a sua contabilidade e os seus impostos. Podes abrir uma sozinho: chama-se sociedade unipessoal por quotas, e o capital mínimo é 1 €.

Essa separação é a origem de tudo o resto: das vantagens (o lucro pode ficar na empresa, o teu património fica mais protegido) e das desvantagens (mais custos, mais regras, e o dinheiro deixa de ser automaticamente teu).

O que muda nos impostos

Nos recibos verdes em regime simplificado, o IRS incide sobre 75% do que faturas - o Estado assume os outros 25% como despesas (é o coeficiente 0,75 para serviços). O imposto segue as taxas progressivas do IRS: quanto mais ganhas, maior a percentagem.

Numa Lda, o lucro paga IRC (o imposto sobre empresas): em 2026, 15% sobre os primeiros 50.000 € de lucro (taxa reduzida para PME) e 19% sobre o resto, mais uma pequena taxa municipal (a derrama, até 1,5%).

Parece muito melhor do que o IRS, certo? Mas afinal falta um passo: esse dinheiro ainda está na conta da empresa, não na tua. Para o tirares como dividendos (a tua parte do lucro), pagas mais 28% de imposto.

1.000 € de lucro na Lda até ao teu bolso (2026)
Lucro da empresa 1.000 €
IRC (taxa PME de 15% até 50.000 €) - 150 €
Dividendos a distribuir 850 €
Imposto sobre dividendos (28%) - 238 €
No teu bolso 612 €

Quase 39% pelo caminho, antes de contar a derrama. A vantagem fiscal real da Lda não está em tirar o dinheiro - está em deixá-lo lá dentro. Lucro que fica na empresa para reinvestir (equipamento, contratações, marketing) paga só o IRC.

Mas há um caso especial que apanha justamente os freelancers: a transparência fiscal (artigo 6.º do CIRC). Se a atividade da empresa está na lista de profissões do art. 151.º (programadores, consultores, designers…) e o capital pertence a quem exerce essa atividade - o retrato exato de uma unipessoal de freelancer - o lucro é tributado diretamente no teu IRS, mesmo que nunca saia da empresa. Nesse enquadramento, a vantagem de “deixar o lucro lá dentro” não existe - explicámos a transparência fiscal em detalhe aqui. Confirma como a tua Lda seria enquadrada antes de decidir.

O que muda na Segurança Social

Nos recibos verdes, pagas 21,4% sobre 70% do que faturas em serviços (faz as contas para o teu caso). Declaras a cada 3 meses (declaração trimestral) e o valor acompanha o rendimento: faturaste menos, pagas menos.

Numa Lda, quem gere a empresa - normalmente tu - desconta como gerente: 34,75% no total, dos quais 23,75% paga a empresa e 11% saem do teu salário. E há uma base mínima: mesmo com um salário simbólico, os descontos incidem pelo menos sobre 537,13 € (o valor do IAS em 2026). São cerca de 187 € por mês, tenhas faturado muito ou nada.

Há exceções - por exemplo, se já descontas como trabalhador por conta de outrem noutro emprego. Mas para quem vive só do negócio, a regra é esta: a Segurança Social numa Lda é mais cara e mais rígida.

Os custos fixos que ninguém menciona no café

Aqui está a parte que o teu primo esqueceu. Uma Lda é obrigada por lei a ter contabilidade organizada com contabilista certificado (artigo 123.º do CIRC) - não é opcional como nos recibos verdes. No mercado, isso custa tipicamente 100 a 250 € por mês.

Vê o caso da Sofia, designer, que fatura 1.800 € por mês:

O que a Lda custaria à Sofia só para existir (1.º ano)
Abertura da empresa (registo online, uma vez) 220 €
Contabilista certificado (~150 €/mês) 1.800 €/ano
Segurança Social de gerente (base mínima) ~2.240 €/ano
Total antes de poupar um cêntimo ~4.260 €

São mais de 4.000 € no primeiro ano - perto de 20% de tudo o que a Sofia fatura - antes de a empresa lhe trazer qualquer vantagem. Para ela, a resposta é clara: ficar nos recibos verdes. (As contas completas de manutenção - empresa ativa e empresa parada - estão em quanto custa manter uma Lda.)

Quando é que a Lda começa a valer a pena

O caso do Miguel, consultor informático, é diferente. Fatura 90.000 € por ano, quer contratar um programador e só precisa de parte do rendimento para viver.

  • Nos recibos verdes, a Segurança Social dele ronda os 13.500 € por ano (21,4% sobre 70% de tudo o que fatura). Numa Lda, com um salário de gerente de 1.500 €/mês, os descontos totais ficam à volta de 6.250 € por ano.
  • O lucro de que não precisa pode ficar na empresa, tributado a 15% em vez de subir aos escalões mais altos do IRS - desde que a Lda escape à transparência fiscal (ver acima); é um enquadramento a validar com o contabilista antes de avançar.
  • Se contratar equipa e algo correr mal, é a empresa que responde - o património pessoal fica, em princípio, protegido. Em princípio, porque o gerente continua a responder pelas dívidas à AT e à Segurança Social se a empresa não as pagar.
Fica nos recibos verdes
  • Faturas menos de ~3.000 €/mês
  • Trabalhas sozinho e queres continuar assim
  • Precisas do dinheiro todo para viver
  • Estás no 1.º ano (isenção de Segurança Social)
vs
Faz contas à Lda
  • Lucro alto que queres reinvestir no negócio
  • Vais contratar equipa ou ter sócios
  • Atividade com risco real para o teu património
  • Aproximas-te dos 200.000 €/ano de faturação

E há um patamar em que a decisão deixa de ser opcional: se ultrapassares os 200.000 € de faturação dois anos seguidos - ou os 250.000 € num único ano - sais do regime simplificado e passas a precisar de contabilidade organizada de qualquer forma. Nesse ponto, o custo do contabilista deixa de ser um extra da Lda - já o terias como independente.

E se depois das contas a resposta for empresa, o processo é mais simples do que parece: vê como abrir uma Lda passo a passo.

Atenção: o erro mais comum de quem abre uma Lda é tratar a conta da empresa como se fosse a conta pessoal. O dinheiro da empresa não é teu: sai como salário (com descontos) ou como dividendos (com 28% de imposto). Levantamentos sem justificação criam problemas sérios com a AT.

Em resumo

  • Abrir empresa não é um truque para pagar menos impostos. Entre o IRC e o imposto sobre dividendos, tirar o lucro da Lda custa perto de 39% - e só existir custa ~4.000 €/ano em contabilista obrigatório e Segurança Social de gerente.

  • A Lda vale a pena quando o lucro fica na empresa - para reinvestir, contratar ou proteger o teu património (confirmando primeiro que não cais na transparência fiscal) - ou quando te aproximas dos 200.000 €/ano e a contabilidade organizada se torna inevitável.

  • Enquanto ficares nos recibos verdes, a burocracia não precisa de te ocupar - o FIZ emite as tuas faturas certificadas e entrega as declarações trimestrais de IVA e Segurança Social automaticamente, para que a decisão de abrir empresa seja sobre estratégia, não sobre fugir da papelada.

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