Há uma pergunta que aparece de tempos a tempos em todos os grupos de empreendedores: “quanto custa manter uma Lda com atividade mínima? O contabilista é mesmo obrigatório?” E a resposta costuma surpreender quem pergunta.
Parece justo: só pagas impostos quando há lucro. Mas afinal a conta de uma Lda chega todos os meses, haja lucro, faturação ou nada. Abrir a empresa custa a partir de 220 €, uma vez; mantê-la custa sempre - e é essa conta que este artigo faz.
O contabilista: o custo que não desliga
Uma Lda tem contabilidade organizada por obrigação legal (artigo 123.º do CIRC) - e isso significa um contabilista certificado, todos os meses, tipicamente entre 100 e 250 €.
Não é uma formalidade que possas saltar nos meses fracos. É o contabilista que entrega as declarações da empresa - e a lei não conhece “meses sem movimento”: a obrigação de declarar mantém-se igual.
A Segurança Social do gerente
Se recebes remuneração como gerente, os descontos são 34,75% (23,75% pagos pela empresa, 11% do teu salário), com uma base mínima de 537,13 € (o IAS de 2026) - cerca de 187 € por mês, mesmo num mês em que a empresa não faturou nada.
Há uma saída para empresas sem atividade: o gerente sem remuneração pode ficar isento se já estiver coberto por outro regime obrigatório - por exemplo, um emprego por conta de outrem com salário acima de 1 IAS. Mas não acontece sozinho: é preciso formalizar a renúncia à remuneração e tratar do enquadramento junto da Segurança Social. As regras têm nuances - valida a tua situação concreta com o contabilista antes de contar com a isenção. As regras completas do gerente - salário, isenções, responsabilidade - estão aqui.
O calendário que não para (mesmo com a empresa parada)
Aqui está o que apanha quem pensa que uma Lda sem movimento é uma Lda sem obrigações:
E não existe dispensa por inatividade: enquanto a sociedade não for formalmente dissolvida e liquidada, as declarações continuam obrigatórias. “Deixar a empresa morrer sozinha” não é uma opção - é uma coleção de coimas à espera de acontecer.
Atenção: o erro clássico é abrir a Lda para um projeto, o projeto não arrancar, e a empresa ficar “na gaveta”. A gaveta custa: contabilista, Modelo 22, IES e RCBE continuam a correr. Se o projeto morreu, encerra a empresa formalmente - custa uma vez, em vez de custar todos os anos.
As contas: a Lda parada da Inês
A Inês abriu uma unipessoal para um projeto de e-commerce que nunca chegou a arrancar. Tem emprego por conta de outrem, renunciou à remuneração de gerente e conseguiu a isenção de Segurança Social. Ou seja: o cenário mais barato possível. Ainda assim:
Mais de 100 € por mês para uma empresa que não faz nada. Em três anos de gaveta, a Inês paga o equivalente a um portátil topo de gama - por nada.
As contas: a Lda ativa do Rui
O Rui é consultor com uma Lda ativa: fatura 5.000 € por mês e paga a si próprio um salário de gerente de 1.500 €/mês. A estrutura dele custa:
Quase 9.000 € por ano só para a empresa existir e funcionar - antes do IRC, da derrama ou de qualquer imposto sobre o que o Rui ganha. É este número que a Lda tem de “devolver” em vantagens (lucro reinvestido, equipa, proteção patrimonial) para valer a pena face aos recibos verdes.
E os impostos sobre o lucro?
Ficam por cima da estrutura: IRC de 15% sobre os primeiros 50.000 € de lucro (19% acima disso), derrama municipal até 1,5%, e 28% sobre os dividendos que tirares. E atenção às tributações autónomas (artigo 88.º do CIRC): despesas com viaturas ligeiras, refeições e representação pagam imposto próprio - mesmo que a empresa tenha prejuízo.
Para profissionais da lista do art. 151.º (programadores, consultores, designers) que são sócios únicos, há ainda o regime de transparência fiscal, que muda as contas por completo - explicámo-lo em detalhe aqui.
Em resumo
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Uma Lda nunca custa zero. Mesmo parada e no cenário mais barato (gerente isento de Segurança Social), o contabilista obrigatório e as declarações anuais custam ~1.500 €/ano. Ativa, a estrutura ronda os 9.000 €/ano antes de impostos.
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A inatividade não suspende as obrigações: Modelo 22 até 31 de maio, IES até 15 de julho e confirmação do RCBE continuam a correr até dissolveres formalmente a empresa. Empresa na gaveta = coimas em construção.
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Faz as contas antes, não depois. Se a estrutura de ~9.000 €/ano não se paga em vantagens claras, os recibos verdes continuam a ser o teu regime - e aí o FIZ trata da faturação certificada e das declarações trimestrais de IVA e Segurança Social por ti, sem contabilista obrigatório.