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Faturo 1.000 € por mês: quanto fica mesmo no bolso?

€1.000 faturados não são €1.000 no bolso. Vê as mordidas - IVA, retenção, Segurança Social e IRS - e quanto sobra mesmo de um recibo verde de 1.000 €.

Faturo 1.000 € por mês: quanto fica mesmo no bolso?

A Sara abriu atividade e passou o primeiro recibo verde de 1.000 €. Ficou contente - até se perguntar: “isto fica todo para mim?”. Não fica. Mas, ao contrário do que muita gente teme, a mordida real costuma ser mais pequena do que parece. Vamos às contas.

As mordidas - por esta ordem

Do que faturas podem sair até quatro coisas - e nem todas são um custo teu:

O que sai de um recibo de 1.000 €
IVA
Se cobras IVA (geralmente 23%), esse valor nunca foi teu - cobras ao cliente e entregas ao Estado. Isento pelo art. 53.º (até 15.000 €/ano)? Nem cobras. O que cobras ao cliente não é rendimento teu nem custo final (afeta preço e tesouraria; sendo isento, não deduzes o IVA das tuas compras)
neutro no bolso
Retenção na fonte
Se o cliente for uma entidade obrigada a reter (e não estás dispensado), retém 23% (podes optar por 25%) e entrega por ti - é um adiantamento do teu IRS, não um custo extra
acerta no IRS anual
Segurança Social
A contribuição mensal: 21,4% sobre 70% do que faturas em serviços (a base é o que declaras trimestralmente)
isento até ao 12.º mês (1.ª vez)
IRS
O imposto final, anual e progressivo, sobre 75% do que faturas (coeficiente 0,75). Protegido em baixo pelo mínimo de existência
depende do ano todo

A taxa de IVA e o coeficiente de 0,75 têm guias próprios - aqui interessa-nos o resultado no bolso.

Exemplo: a Sara fatura 1.000 €/mês (isenta de IVA)

A Sara está no regime simplificado, faz consultoria (uma profissão do art. 151.º) e fatura ~12.000 €/ano - abaixo dos 15.000 €, por isso está isenta de IVA (art. 53.º) e dispensada de retenção. Já passou o 1.º ano, portanto paga Segurança Social.

Recibo de 1.000 € da Sara
Faturado 1.000 €
IVA (isenta, art. 53.º) 0 €
Retenção na fonte (dispensada) 0 €
Segurança Social (21,4% × 70%) − 149,80 €
IRS (12.000 €/ano < mínimo de existência) ≈ 0 €
Fica no bolso ≈ 850 €

Repara no IRS: como o mínimo de existência em 2026 é de 12.880 € (14 × o salário mínimo de 920 €) e a Sara ganha menos do que isso no ano (e não tem outros rendimentos), o IRS fica praticamente a zero. Para a Sara, a mordida real é só a Segurança Social (porque o IRS lhe fica quase a zero) - e, se é a 1.ª atividade, nos primeiros ~12 meses nem essa existe: a obrigação de contribuir só começa no 12.º mês.

E se faturas mais?

O cenário muda quando passas os 15.000 €/ano. Aí a isenção cai - em regra no ano seguinte, mas já no próprio ano se ultrapassares em mais de 25% (acima de 18.750 €) - e a conta ganha mais camadas:

1.000 €/mês (~12.000 €/ano)
  • IVA: isenta (art. 53.º)
  • Retenção: dispensada
  • Segurança Social: ≈ 150 €/mês
  • IRS: ≈ 0 (mínimo de existência)
vs
2.500 €/mês (~30.000 €/ano)
  • IVA: cobras 23% (neutro, mas geres e entregas)
  • Retenção: se o cliente for obrigado a reter, 23% (adiantamento)
  • Segurança Social: ≈ 375 €/mês (21,4% × 70%)
  • IRS: já acima do mínimo, sobe pelos escalões

Repara que o que mais muda não é a Segurança Social (mantém-se 21,4% × 70%), mas o IRS: à medida que o rendimento sobe acima do mínimo de existência, o imposto começa a pesar e a percentagem que fica no bolso vai descendo. Não é um tudo-ou-nada - os escalões são progressivos e aplicam-se por fatias, não a todo o rendimento de uma vez.

Atenção: estes números são um retrato com pressupostos (regime simplificado, profissão do art. 151.º, sem outros rendimentos, sem deduções à coleta). O teu IRS real depende do ano todo, do teu agregado e das deduções (saúde, educação, etc.), e só se fecha na declaração anual. A retenção que te fazem durante o ano é um adiantamento - se for a mais, é devolvida no reembolso. Vê o detalhe no guia do IRS do independente.

✅ Em resumo

  1. 1.000 € faturados não são 1.000 € no bolso, mas a mordida real é mais pequena do que parece: o IVA é neutro (ou isento) e a retenção é só um adiantamento. Sobram a Segurança Social (21,4% sobre 70%) e o IRS - que a rendimentos baixos fica quase a zero, mas pesa mais à medida que faturas mais.

  2. Quem fatura ~1.000 €/mês e está isento de IVA (até 15.000 €/ano) fica com ≈ 850 € - e nos primeiros ~12 meses (se é a 1.ª atividade), sem Segurança Social, fica com quase tudo (a este nível de rendimento), porque o IRS está protegido pelo mínimo de existência (12.880 € em 2026). A partir de 15.000 €/ano (a isenção cai no ano seguinte, ou já no próprio ano se passares dos 18.750 €) entram IVA, retenção e mais IRS.

  3. Com o FIZ vês em tempo real o que é IVA, o que é Segurança Social e o que é IRS - e quanto do recibo é mesmo teu, sem sustos no fim do ano. Vê os planos.

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